Sunday, December 17, 2006

Fiz um conto para me embalar

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como sou ainda criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais,as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.
Natália Correia







Saturday, December 16, 2006

Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras,vai devagar!


Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras,ó meu navio
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras,ó meu navio
Navega mais devagar
Que nuvens correndo em rio
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.


Nátalia Correia
Dez réis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde vem,
não comia,nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram,viram,ouviram,
viram,e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule,flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

Wednesday, December 13, 2006

Caminhos

" Seguir em frente não vai dar.
Voltar atrás já é tarde demais.
Parar no caminho é negar o que sinto.
Mudar de caminho é me enganar e me perder.
Tentar esquecer é enganar os outros e não a mim.
Toda a vez que me olhar ao espelho,vou me culpar por não lutar o que desejo.
Não dá para esquecer,não posso dizer que não se digo sim.
Não quero esquecer esse Amor,mesmo sendo proibido."

Autor desconhecido.

Tuesday, December 12, 2006

Dor de Alma

Meu pratinho de arroz doce
polvilhado de canela;
Era bom mas acabou-se
desde que a vida me trouxe
outros cuidados com ela.

Eu,infante,não sabia
as mágoas que a vida tem.
Ingenuamente sorria,
me aninhava e adormecia
no colo da minha mãe.

Soube depois que há no mundo
umas tantas criaturas
que vivem num charco imundo
arrancando arroz do fundo
de pestilentas planuras.

Um sol de arestas pastosas
cobre-os de cinza de de azebre
á flor das águas lodosas,
eclodindo em capciosas
intermitências de febre.

Já não tenho o teu engodo,
Ó mãe,nem desejo tê-lo.
Prefiro o charco e o lodo.
Quero o sofrimento todo.
Quero senti-lo,e vence-lo.


António Gedeão

Wednesday, December 06, 2006

Dia de Natal!

Hoje é dia de era bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.



É dia de pensar nos outros__coitadinhos__nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos,mesmo aos que merecem,

de meditar sobre a nossa existência,tão efémera e tão séria.



Comove tanta fraternidade universal.

É so abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos.

Entoa gravemente um hino ao criador.

E mal se extiguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.



De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Nâo seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)


Torna-se dificil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela,se multiplica em gestos,esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.



Nas lojas,na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam,sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico,de metal,de vidro e de cerâmica.



Os olhos acorrem,num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse bênçãos e favores.


A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente,mesmo sem querer,entra no estabelecimento

e compra__louvado seja o Senhor!__o que nunca tinha pensado comprado.



Mas a maior felicidade é da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta,tanta,tanta,

que nem dorme serena.



Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha,

salta da cama,

corre á cozinha

mesmo em pijama.



Ah!!!!!!!!!!



Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-lhe a surpresa

do Menino Jesus



Jesus

o doce jesus.

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.


Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho,estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortars:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

É até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

qua caíam

crivados de balas.



Dia de Confraternizacão Universal.

Dia de Amor,de Paz,de Felicidade,

de sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.



António Gedeão

Tuesday, December 05, 2006

Para ti João!

Pedra filosofal!

Eles não dabem que o sonho
è uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como esse ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como esses pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho,é espuma,é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é teia,é cor,é pincel,
base,fuste,capitel,
arco em ogiva,vitral,
pináculo de catedral,
contraponto,sinfonia,
máscara grega,magia,
que é retrota de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos,Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa esperança,
ouro,canela,marfim,
floreto de espadachim,
bastidor,passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios,locomotiva,
barco de proa festiva,
alto- forno,geradora,
cisão do autómo,radar,
ultra-som,televisão,
desembarque em foguetão
nao superficie lunar.

Eles não sabem,nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entra as mãos de uma criança.

António Gedeão

Monday, December 04, 2006

Adorava saber fazer poemas,como não sei,faço uma homenagem aos grandes poetas.


Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.


António Gedeão

" Poucos chegamos onde queremos.O lugar de cima é para os corajosos e a coragem da maioria das pessoas esgota-se antes de conseguir atingir o topo"

Montapert
" Aprendi a procurar a felicidade limitando os dejesos,em vez de tentar satisfazê-los."

J.S.Mill
" Os pensamentos são como as pulgas - pulam de uma pessoa para outra,mas não mordem toda a gente."
Ola!
Criei o meu blog,não percebo nada destas "andanças" mas quis exprimentar,vamos ver se resulta.