Friday, February 23, 2007

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua,meu amor.
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos á força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Ás vezes tu dizias:os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possiveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco,mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo:meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E,no entanto,antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



Eugénio de Andrade





Saturday, February 10, 2007

Hoje tenho vontade de postar algo que um dia alguém me escreveu....


" É nestes pequenos (grandes) momentos que a vida nos surpreende com a tua beleza...

Há muito que não conhecia alguém como tu! És sensivel, atraente e muito bonita.

A tua companhia é demasiado importante para mim... sentir-te em mim tem sido uma constante.

Obrigada por me aturares."




Quando recebi isto senti-me outra mulher...há muito que não ouvia (lia) palavras que me elevassem o ego...não queria acreditar... podia ter sido FELIZ,com esta pessoa,mas não quis arriscar,tive medo,não tenho mais vinte anos,a idade condicionou-me....

Wednesday, February 07, 2007

Teu aniversário

Não...não me esqueci,há vinte oito anos estava eu radiante...logo depois fiquei muito triste,pois recebi a noticia que nasceste muito doente,ias morrer disse-me o médico com muito cuidado,pensei para mim,não...ele não vai morrer,pedi muito nas minhas orações,eu que nem acredito muito em crenças,mas nesse momento pedi com toda a força que vinha dentro de mim e dos meus tenros vinte e um anos,lutas-te durante quase um mês entre a vida e a morte,mas VENCES-TE...!!!Hoje estou novamente triste...pois nem parabéns te posso dar,não me reconheces como Mãe...já sei...primeiro fui eu que te recusei como filho pensas tu!Não faz mal...há uma coisa que sei e me consola...não te matei...lutei nos meus pedidos que te deixassem viver,fui ouvida "vingas-te",cresceste,fizeste-te homem,hoje também já es Pai....não deixes por favor que a tua filha,quando fizer vinte oito anos,também não aceite os teus PARABÉNS....

Monday, January 29, 2007

Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até a morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, ja te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca


Um dia alguém disse:

- Reconheço que tenho defeitos, vivo ansiosa demais e fico irritada muitas vezes...

-Reconheço que a minha vida não é a maior empresa do mundo e sei que não vou conseguir evitar que ela vá á falência

-Reconheço que nem sempre vale a pena viver... apesar de fazer frente a muitos desafios

-Reconheço que não sou a autora da minha própria história.Embora participe em alguns capitulos... a minha história já estava escrita quando eu nasci

-Reconheço que não posso atravessar desertos fora de mim... pois não teria coragem para regressar... oásis nos recônditos da minha alma só em breves momentos perdidos no tempo...

-Reconheço que tenho medo dos meus próprios sentimentos...

-Reconheço que por vezes não tenho coragem para ouvir um "não".
-Pedras no caminho? Guardei-as todas...não construi um castelo mas sim uma fortaleza onde ninguém ousa entrar...

(1978)

Colocado por deltacat em março 11,2006

Wednesday, January 24, 2007

" Posso ter defeitos,viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas,não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo,e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,incompreensoes e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vitima dos problemas e se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si,mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não".É ter segurança para receber uma critica,mesmo que injusta.

Pedras no caminho?Guardo todas,e um dia vou construir um castelo..."



Fernando Pessoa






Tuesday, January 23, 2007

Deixei para trás os erros do que fui
Deixei atrás os erros que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso,como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.



Fernando pessoa




Sunday, January 14, 2007

Memórias

Estavamos em Dezembro do ano 1957,estava a minha mãe a dar à luz,depois de ja ter tido um rebento 13 anos antes,acredito que foi com alegria que ela me recebeu em seus braços,o meu pai esse enigma também adorou o meu nascimento tenho a certeza (ainda por cima uma menina).Depois das escolhas de nomes fiquei Conceição,pois nasci na vespera de Nossa Senhora da Conceição,acho que a minha mãe não gostava muito do nome mas,aconselhada pela freira lá do hospital onde eu nasci,fez-lhe a "vontade" a minha mãe tinha lido o livro "Sãozinha"...acho que era uma história de uma santa,aí ela resolveu me chamar de Sãozinha,julgando ela (talvez) que eu seria uma "santa"eheheheh!Engano o dela pois eu saí uma "diabinha" teimosa,irreverente,etc...etc...!Dei-lhes alguns dissabores,era proíbida por ela(minha mãe)de tudo...não podia ir ao café..não podia ir ao cinema...não podia ter amigas/os...enfim,nada eu podia fazer sem ser na companhia dela,o meu pai acho que não concordava muito com as teorias da minha mãe mas...também não se pronunciava,nem lhe retirava o comando das suas decisões.E assim fui crescendo um pouco revoltada,mas fazendo sempre o que me ia na "tola" fugia de um lado para outro...mas conseguia sempre fazer tudo o que eu queria.Aos vinte anos resolvi casar,uma maneira de fugir á "repressão" da minha mãe,casei e fui feliz,mas só durante meia dúzia de meses,pois logo acabou...sofri muito,ainda hoje recordo com saudade esse grande amor!Aos vinte e quatro anos resolvi "sair" da ilha onde nasci...era demasiada pequena para mim sufocava-me...e lá vim eu a caminho do Continente,atrás de um outro grande amor!Se fui feliz com ele?!Sim fui!Enquanto durou,fui sempre muito feliz com todos os "amores" que passaram na minha vida.Hoje passado quase meio século da minha vivência e depois de ter passado muito...lutado muito...recordo com saudades todos os homens que me fizeram FELIZ!Recordo com saudades a minha mãe,uma mãe dura,mas que hoje sei,que só o fez para me proteger...do meu pai recordo ainda com mais saudades,o meu ídolo,homem de poucas conversas,mas só o olhar dele me dizia constantemente,"és a minha filha adorada!"
Felicidade?Não sei se existe...pois nem sempre fui feliz...acho que a felicidade são momentos...hoje,tenho momentos de felicidade...mas só momentos...!
Continuo teimosa...mas muito mais calma...pois,de cima dos meus quase meio século,já não me posso dar ao luxo de grandes irreverências...mas tenho SAUDADES de ser FELIZ...!!

Friday, January 05, 2007

Saudade

Alguma vez soubeste o que é saudade,
que faz da nossa vida uma agonia?
Alguma vez num espaço dum só dia,
sonhaste percorrer a eternidade?

Perdeste alguma vez a liberdade?
Sentiste emurhercer tua alegria,
como ao cair da noite murcha o dia,
no derradeiro tom da claridade?...

Se nunca presumiste o que era amor,
despindo as galas e vestindo a dor,
se uma saudade,enfim,não conheceste,

não saias do limite da razão
para atender a voz do coração,
que o maior mal ainda o não sofreste!...


Marta de Mesquita da Câmara