Friday, February 23, 2007

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua,meu amor.
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos á força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Ás vezes tu dizias:os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possiveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco,mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo:meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E,no entanto,antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



Eugénio de Andrade





5 comments:

Marta said...

Um poema lindíssimo...
Conheço-o desde as minhas aulas de Português de secundário (já lá vão uns bons anos)... revejo-o com frequência, faz parte do "meu top"!
bom fds
bj

Maxima e pensamentos said...

Olá marta,ainda bem que gostaste... eu adoro poesia,como não tenho "veia" para os escrever, tento procurar poetas,com poemas que me digam algo e este é um deles...

Um optimo fim de semana

Beijos

Lindona said...

Bonito poema.

Lindona said...

Tá na hora... ou melhor a hora já passou há muito! Toca lá a Pôr cá qualquer coisa nova e bonita como nos tens habituado.

PAULO SANTOS said...

Engraçado...
Um adeus no meu regresso.....

Vim dar-te um beijo

Paulo

(há uma promessa a pagar no interior...)