Já gastámos as palavras pela rua,meu amor.
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos á força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Ás vezes tu dizias:os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possiveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco,mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo:meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E,no entanto,antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
5 comments:
Um poema lindíssimo...
Conheço-o desde as minhas aulas de Português de secundário (já lá vão uns bons anos)... revejo-o com frequência, faz parte do "meu top"!
bom fds
bj
Olá marta,ainda bem que gostaste... eu adoro poesia,como não tenho "veia" para os escrever, tento procurar poetas,com poemas que me digam algo e este é um deles...
Um optimo fim de semana
Beijos
Bonito poema.
Tá na hora... ou melhor a hora já passou há muito! Toca lá a Pôr cá qualquer coisa nova e bonita como nos tens habituado.
Engraçado...
Um adeus no meu regresso.....
Vim dar-te um beijo
Paulo
(há uma promessa a pagar no interior...)
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